Do Lado de Dentro

Há muitos anos venho acompanhando a escalada da violência, dada à impossibilidade de não me ver inserido no contexto. Como jornalista, fiz muitas matérias e reportagens sobre o assunto, inclusive em momento de rebeliões em presídios e superlotação de celas em delegacias. Entrei em penitenciárias e vi a situação em que ficavam os presos (na década de 1990): uns em ótima situação, com eletroeletrônicos e celulares nos cubículos; outros, em condições deploráveis. Vários presos por mais de 10 anos, aguardando julgamento (por estranho que pareça).

Evidente, os habitantes de locais assim não foram levados para lá sem motivos. Todos são, em tese, criminosos. Mas as entidades de defesa dos direitos humanos (às quais eu respeito e apoio) tendem a superproteger esses criminosos e, na ânsia de defender os direitos dos presidiários, às vezes se esquecem do cidadão honesto e trabalhador que sofre a ação criminosa.

Dia desses fui assaltado, pasmem, em um local absolutamente inimaginável, de desembocadura, entre a praia e o rio, ocasião em que iria pescar acompanhado de um dos meus filhos. Ficamos ambos na mira do revólver de um dos três assaltantes, durante cerca de 10 minutos, enquanto dois deles esvaziavam meus bolsos. Aparentavam idade entre 18 e 22 anos no máximo, ou seja, fase em que deveriam estar na faculdade ou trabalhando, ou ambos.

Enfim, não pescamos e, ainda, fiquei sem celular, sem dinheiro e sem meus documentos. Como administrei bem a situação e não reagi, estou aqui. Saí dali muito entristecido, não por ter perdido dinheiro, documentos e celular, mas por constatar, na pele (do lado de dentro do problema), que não há mais lugar em que se possa considerar seguro. Assim me expresso porque quem ouve falar, ou vê na mídia, não tem ideia do que é estar na mira de uma arma, sem saber o que vai acontecer no segundo seguinte. Pior ainda é saber que, ao invés de reduzir-se, a violência continua aumentando dia a dia.

Todo este caos é fruto da alarmante injustiça social e da falta de educação (em seu sentido amplo e profundo) que imperam no Brasil. Em um país onde cinco por cento da população detêm 95% das riquezas, fica difícil combater a violência. Continuo, entretanto, acreditando que se realizarmos a justiça social, mesmo que seja a longo prazo, começando agora pela EDUCAÇÃO, um dia teremos minimizada essa quase guerra civil.

Veículos são queimados em várias cidades do Brasil e outras ações criminosas se desenrolam em diversos pontos de regiões metropolitanas, deixando as polícias em polvorosa e a população estática. O medo é real, especialmente quando há necessidade de irmos a um banco ou caixa eletrônico pagar ou retirar quantias.

Imagem: pixabay.com

E a Justiça continua abarrotada de processos, o Estado, na ânsia de efetivar seu sistema punitivo, sem presídios suficientes para deter, atrás de grades, infratores de alta periculosidade. Enquanto isso, os Juizados Especiais, criados com o objetivo principal de contribuir para a celeridade na Justiça Comum, ficam superlotados de processos de brigas de vizinhos, animais nas ruas, usuários de drogas, pais que espancam os filhos, cobranças, que se arrastam, anos sem solução.

O crime organizado e suas facções matam impunemente policiais e cidadãos inocentes. Sair à rua, tanto aqui como lá, é uma aventura perigosa, a qualquer hora do dia. Tanto pelo risco de sermos abordados por assaltantes, como pelo perigo de sermos atingidos por uma ou mais balas perdidas. Mas isso tudo é dito diariamente, pelos meios de comunicação e pelo povo, sem que surja uma forma de equacionar o problema.

As causas…Bem, as causas também são muito citadas e conhecidas. A origem, para os sociólogos e pesquisadores do assunto, vão da crônica injustiça social, passam pela carência na área de educação, cultura e emprego, e vão desembocar no mar da impunidade, onde atua, antes submersa, agora emergindo diante da população, a corrupção em todos os poderes constituídos.

A repetitiva frase “a distribuição de renda no Brasil é a mais injusta e cruel do mundo”, cai em outro lugar comum: “Enquanto os cães ladram, a caravana passa.” Sai governo, entra governo e ela continua injusta e cruel. E a violência, continuando a citar o mestre Chico Buarque: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã…” Como é o caso das sirenes das polícias, nas primeiras horas da manhã, indo combater criminosos.

Com algumas diferenças básicas: Não “me sorri com um sorriso pontual”, mas “me beija”, um beijo com gosto de fel, misturado com boldo e milome, carqueja, e o que mais vocês quiserem imaginar de amargo.

Alguém irá dizer: esses jornalistas só falam, criticam, mas não sugerem alternativas para solucionar os problemas. Pois bem, vamos sugerir apenas o trivial: Que tal começar por concretizar ações que realizem a justiça social, efetivem direitos iguais à educação para todos e gerem mais emprego e renda?

Simultaneamente, é necessário limpar os poderes constituídos da praga da corrupção, não misturar presidiários que praticaram crimes fúteis com assassinos cruéis e hediondos; ressocializar (dando trabalho digno e educação curricular dentro das penitenciárias); aplicar penas rigorosas e sem progressão aos irrecuperáveis. Como consequência, não permitir que a impunidade seja uma premissa para a entrada na vida criminosa.

Todas as sugestões de nada valem se não forem, já, colocadas em prática pelas instituições investidas do poder para fazê-lo. Portanto, que se comece agora a agir, para que, em futuro não tão distante, possamos viver em uma sociedade mais equilibrada, sem sobressaltos a cada minuto. Como a criança que aprende a caminhar, o primeiro passo tem que ser dado.

Melhor é investir agora em EDUCAÇÃO, do que continuar (ad aeternum) a gastar dinheiro público construindo presídios. Finalmente, como (ainda) diria o mestre Chico Buarque, que nossas autoridades não fiquem vendo “a banda passar”, para que “a minha gente sofrida” possa “despedir-se da dor”.

 

Andrade Sucupira Filho

Cortesia de:

Andrade Sucupira Filho é jornalista, diretor de conteúdo e assessor em comunicação social. Bacharel em Comunicação Social (UFES) e pós-graduado em Direito em Administração Pública.

Grande amigo e admirável profissional.

http://www.culturarevista.jor.br/

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